BEATRIZ UQ


O OUTRO NÃO DEVE SER SEU PORTO SEGURO

Colocamos o nosso valor na reação do outro. Colocamos o sentido da nossa existência na forma como o outro nos enxerga. Entregamos o controle da nossa paz ao comportamento de pessoas que também estão tentando, à sua maneira, administrar os próprios vazios.

Somos seres lançados no mundo (filosofia existencial fala sobre isso), jogados numa existência que ninguém nos ensinou a habitar. É um completo desamparo, já percebeu? O outro vira um porto pra gente e encontramos uma segurança que não aprendemos a construir por dentro. Será essa uma tentativa inconsciente de aliviar a angústia de existir? Já parou pra pensar nisso?

O ponto é que o outro não é porto, ao menos, não deveria ser… Talvez eu esteja sendo extremista, mas enquanto não percebemos isso, nos tornamos reféns da ideia de que o amor é uma salvação por exemplo, uma transferência de responsabilidade, ou até mesmo uma autorização para não precisarmos crescer. Entende o por que dói tanto quando o outro falha? Acontece um colapso na estrutura que criamos sobre ele. Imagina só quando ele não responde, quando não se importa ou até mesmo quando não acolhe, é como se o chão desaparecesse e a sensação de vazio aumenta. A conclusão que chego é que esse chão nunca foi sólido. Talvez apenas uma ilusão de depender daquilo pra existir.

Essa forma de apego se aprende cedo, e em famílias onde o amor e o cuidado vinham misturados à obrigação. Aprendemos a nos ajustar, a agradar e a merecer. Crescemos medindo a própria identidade pela resposta do outro, e, sem perceber, continuamos adultos procurando quem nos nomeie, quem garanta que estamos certos, que somos bons o bastante, amáveis o bastante, inteiros o bastante. Mas Sartre já dizia, quando fala sobre liberdade, que ninguém além de nós pode sustentar o que somos. Que a responsabilidade sobre si é o preço da liberdade. Ser livre não é viver sem vínculos, é não terceirizar o próprio sentido.

O que quero dizer com tudo isso é que a resposta que a gente procura, talvez nunca venha de um jeito claro ou rápido. Talvez ela se revele nas pequenas experiências de ficar consigo mesmo. Nos silêncios desconfortáveis, nas pausas, nas vezes em que o impulso de buscar o outro é substituído por um olhar mais paciente pra dentro de si. Entenda que descobrir-se responsável pelo que sente pode num primeiro momento, parecer solitário, mas aos poucos, essa solidão vai mudando. Ela deixa de ser um buraco e começa a ser um espaço onde algo novo pode nascer. E é nesse espaço que você percebe que pode ser porto de si. Que pode se acolher, se nomear, se afirmar. Que a paz que tanto procura talvez nunca estivesse nas mãos de ninguém, mas adormecida nas suas.

No fim, não se trata de deixar de amar ou de se fechar ao outro, okay!? E sim de amar com lucidez, com inteireza, sem a pressa de ser salvos. Entenda que quando a gente se sustenta, o amor deixa de ser abrigo e passa a ser encontro. E esses, os encontros entre inteiros, são os únicos que realmente libertam. Pensa nisso! Talvez algo se releve em você!

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